segunda-feira, 3 de agosto de 2020

DIÁLOGO(S) COM A SOCIEDADE: MAIMUNA QUER SER A VOZ DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

Eu sou Maimuna Oringa, sou cega e mãe de duas crianças. Vivo em Cuntum Madina (Bissau) com um dos meus filhos e com alguns membros adolescentes da minha família.

A minha rotina é simples, levanto-me e faço alguns trabalhos de casa tendo com base na minha limitação. Com a pandemia, tudo se tornou ainda mais difícil. Antes, ia todos os dias à Rádio Sol Mansi apresentar o programa “Fala dos Deficientes”. Mas agora, gravo os programas uma vez por semana e além disso sou obrigada a usar máscara e a minha circulação actualmente é muito mais reduzida e dificultada.

O coronavírus chegou à Guiné-Bissau oficialmente no dia 25 de Março, no dia seguinte fui informada que a minha mãe adoeceu e estava em estado grave. No dia seguinte, 27 de Março saí de Bissau para o ilhéu da Galinha, região de Bubaque, afinal era o último barco porque posteriormente o governo proibiu a circulação das viaturas terrestres e marítimas. 

Testemunhei o sofrimento da minha mãe durante todo o tempo que esteve doente. Alguns dias depois, piorou pois não tinha condições adequadas para um tratamento médico no ilhéu devido às condições precárias dos centros de saúde nas regiões do país, sem remédios mesmo para tratamentos mais simples. A minha mãe acabou por falecer no dia 11 de Junho porque não teve um tratamento adequado.

O coronavírus fez-me ficar sem mãe e isso deixa-me muito triste. Se não fossem as medidas impostos para conter a propagação do coronavírus, a minha mãe poderia estar viva, pois haveria a possibilidade de a levar para Bissau onde teria melhores tratamentos e cuidados médicos. 

O coronavírus colocou barreiras enormes na minha vida. Além da perda da minha mãe, impediu-me de dar o último adeus ao homem que me fez ser mulher e voz dos deficientes. Impediu-me de viver os últimos momentos com o meu líder Manuel Lopes Rodrigues, o fundador da Associação da Reabilitação e Reintegração dos Cegos (AGRICE) que morreu no dia 25 de Junho. Sou um dos membros fundadores da AGRICE e eu era a única mulher na altura. 

Durante todo este período, fui abandona pelo Estado. Nunca foram criados mecanismos de apoio às pessoas com deficiência. Somos totalmente discriminados, até nas sensibilizações sobre prevenção de COVID-19. Por exemplo, nas televisões, não existe nenhum sinal gestual. As sensibilizações são feitas, mas as pessoas deficientes não são chamadas a integrar a comissão, as suas vozes não são ouvidas em nenhuma esfera. Todos somos iguais perante a lei, mas na prática a sociedade é injusta connosco. 

Esquecem-se sempre da nossa existência, até nas vias públicas somos discriminadas através das barreiras nas calçadas, assim como no acesso ao transporte público.

Tenho sonhos que visam valorizar as pessoas com deficiência na Guiné-Bissau porque só eu sei o que passo diariamente. Por isso mesmo, no futuro, quero ser a primeira deputada da Nação invisual na Guiné-Bissau para fazer ouvir a voz dos deficientes e para chamar a atenção para os direitos dos deficientes. A minha meta é chegar ao parlamento e falar sobre as nossas dificuldades e a discriminação a que somos sujeitos. Tenho que chegar lá e fazer com que a nossa voz conte. 

Por: Elisangila Raisa Silva dos Santos

terça-feira, 21 de julho de 2020

DIÁLOGO(S) COM A SOCIEDADE: RETRATO DE UMA EMPREGADA DOMÉSTICA EM TEMPOS DE PANDEMIA


Chamo-me Mariana Sané, sou empregada doméstica, com a pandemia perdi o meu emprego. Vivo sozinha num quarto alugado e sou mãe de um menino de 4 anos de idade.

Antes do anúncio dos casos da Covid 19, na Guiné-Bissau, trabalhava em Antula. Fazia todos os trabalhos domésticos, incluindo cuidar dos filhos da minha patroa. O meu salário era de 30 mil francos CFA mensais.

Levantava-me muito cedo para chegar às 7 horas ao meu local de trabalho, porque a minha patroa saía de casa às 8 horas. Pagava o meu salário, mas sempre com algum atraso. No início custeava o meu transporte «casa-trabalho-casa», mas com o tempo começou a queixar-se que ganhava pouco e que não poderia continua a assegurar o meu transporte.

Com o surto da pandemia, queria diminuir o meu salário, recusei porque o que ganhava nem dava para assegurar as minhas despesas até ao final do mês. Na sequência, disse-me para ficar em casa e que não poderia pagar o meu salário durante esse tempo. Até hoje está-me a dever um mês de salário sustentando que não completei os 30 dias de trabalho.

Depois de perder o emprego, quase fui despejada, mas o facto de sempre pagar a minha renda regularmente antes da pandemia, ajudou-me a continuar a ter onde morar, mas continuo em risco de deixar de ter um teto para mim e para o meu filho.

Perante essa situação, com várias pessoas para sustentar: a minha mãe idosa, o meu pai doente, os meus irmãos e o meu filho, tive que encontrar uma alternativa para poder sobreviver. Atualmente, levanto-me às 5 da manhã, compro mangas e vendo-as nas ruas, mas mesmo assim o dinheiro não cobre as minhas despesas.

Os nossos direitos têm sido constantemente violados, com o surgimento da pandemia tudo piorou. O governo não se preocupa connosco, parece que não existimos aos olhos das autoridades guineenses, por isso somos sistematicamente violadas e maltratadas pelos nossos patrões.

Mariana Sané

Por: Elisangila Raisa Silva dos Santos

quarta-feira, 15 de julho de 2020

DIÁLOGO(S) COM A SOCIEDADE: RECOMEÇAR PARA NÃO CEDER AO MEDO

Chamo-me Sunira Nadine Mendes Gomes Embaló, sou empreendedora. Trabalhava em casa há muitos anos e no ano passado alarguei o meu negócio e agora tenho um empreendimento chamado “Delicias di Nangai”, um espaço restaurante e pastelaria, no Bairro de Pluba. A iniciativa começou muito bem. O negócio dava lucros e até o mês de Dezembro, a época festiva, o rendimento era generoso porque tínhamos muita procura e muitas encomendas.

O primeiro impacto negativo em termos económicos foi na época das eleições presidenciais de 2019, quando o fluxo dos clientes diminuiu. Tinha esperança que iríamos conseguir sobreviver à situação com um fluxo maior de em Fevereiro, que é a época do Carnaval. Mas a incerteza continuou e foi agravada em Março quando foi implementado o primeiro estado de emergência por causa do surgimento dos primeiros casos da Covid-19 no país e o sector da restauração foi uma da mais afectadas na nossa economia. Com o surgimento da pandemia no país, o negócio foi deitado por água-a-baixo, fui obrigada a fechar a minha instalação que chegou a servir de base para a Guarda Nacional.

Em finais de Julho, decidi reabrir o meu negócio e recomeçar com que o tenho e a cada dia, apesar das dificuldades. 

Para além da pandemia, a situação torna-se ainda mais crítica com a época chuvosa, quando o volume de negócio mesmo em tempos normais é mais reduzido. Com a reabertura é preciso pelo menos uns três meses para reconquistar a confiança dos clientes.

Agora não consigo arrecadar nem metade do rendimento que arrecadava antes da pandemia. Com a situação apertada, decidi pela redução de funcionários. Agora trabalho só com metade dos funcionários e alargamos o horário, abrimos até às 18 horas. A redução de funcionários afetou-me bastante e acarreta vários sacrifícios, porque agora faço de tudo aqui no meu restaurante. Tínhamos uma linha centrada de funcionários formados na área de produção de bolachas bio. Com os funcionários agora em casa, sou obrigada a ficar com o encargo da lacuna deixada. Não é fácil ser um “polvo” e nem sei até quando vou conseguir manter essa situação.

Tive que improvisar e adotar novas estratégia para que o meu empreendimento possa continuar aberto. Para facilitar os trabalhos, criámos certos mecanismos: os trabalhos mais pesados pedimos que se faça a encomenda com 72 horas de antecedência. O pedido antecipado permite-me organizar melhor tendo em conta o número reduzido de funcionários.

A parte mais rentável do negócio é a encomenda na área de confeitaria que, embora esteja a trabalhar a meio gás, o rendimento que tem gerado tem sido uma bolha de oxigénio para colmatar as dificultardes noutras áreas. Não tem sido fácil, mas tenho fé que a situação venha a normalizar.

Apesar das dificuldades e de saber do impacto do coronavírus no sector da restauração, e que muitos correm o risco de fechar, não posso desistir porque este sonho é como um filho que eu criei, portanto, não posso ceder ao medo porque a vida é feita de riscos.

Sunira Nadine Gomes Embaló

Por: Elisangila Raisa Silva dos Santos