sábado, 9 de maio de 2020

DIÁLOGO(S) COM A SOCIEDADE: NETWORKING SOLIDÁRIO

Quando os números de telefone da iniciativa foram lançados nas redes sociais, as ligações que recebemos de pessoas relatando as suas dificuldades e pedindo ajuda foram mais numerosas do que as ligações dos que queriam contribuir... isto mostra a dimensão da dificuldade que a população guineense está a enfrentar.

Foi justamente ao conversar com o meu amigo Wellena, sobre quais poderiam ser os efeitos colaterais da entrada em vigor do estado de emergência, que vimos que a parte económica seria uma das mais afetadas, sobretudo no que toca a alimentação, uma vez que muitas pessoas vivem daquilo que conseguem vender no dia a dia.

O que nos veio à mente foi: “o que podemos fazer para amenizar a fome (tadja fomi) das famílias mais carenciadas?” Então decidimos ligar aos nossos amigos, que prontamente se disponibilizaram. Foi interessante observar que todos estavam preocupados com a situação mas não sabiam como poderiam ajudar a combatê-la. Criámos um grupo do WhatsApp, fizemos uma nota conceptual, abrimos uma página no Facebook, fizemos um flyer... surgiu assim a iniciativa ‘Tadja Fomi’.

Hoje somos 32 voluntários. Os que apoiam não são pessoas ricas – muitas também enfrentam dificuldades em casa – mas o pouco que têm compartilham. Por exemplo, há um senhor que não pôde ajudar com alimentos ou dinheiro, entretanto, como é condutor e tem o seu carro, disponibilizou-se para nos auxiliar nas deslocações.

Há outros que até já tinham as suas iniciativas, mas chegaram a conclusão que fazia mais sentido somarem connosco para criar um grupo forte e o mais transparente possível, afinal de contas, as pessoas que doam querem ter a certeza de que suas doações chegarão ao destino.

Na primeira fase estabelecemos como meta ajudar um total de 400 famílias distribuídas por bairros periféricos do sector autónomo de Bissau. Foram escolhidas as localidades de Gabussinho, Cuntum Madina, Plack 1 e Plack 2. Para tal, utilizou-se como critério a distância destas localidades em relação ao centro comercial da capital.

Já para estabelecer quais seriam as famílias beneficiadas, utilizámos critérios como: número de pessoas por família (agregado familiar); famílias de baixa renda lideradas por mulheres; número de pessoas que trabalham na família e qual é o tipo de trabalho; se têm pessoas idosas na família, pessoas com deficiência e o número de crianças menores de 12 anos.

Neste momento, estamos a trabalhar na segunda fase. Desta vez, vamos ao interior do país. Elegemos no Norte a região de Cacheu e a região de Oio; no Leste a região de Gabú; e no Sul a região de Tombali. Nestas regiões, iremos trabalhar nas zonas mais afastadas, de difícil acesso. Para selecioná-las, tomamos como base um dos relatórios do Programa Alimentar Mundial (PAM) sobre nutrição e segurança alimentar e escolhemos zonas que já enfrentavam dificuldades mesmo antes da pandemia.

Nossa meta agora é alcançar 1200 famílias. Como este processo é mais complexo, contamos com o apoio das associações locais e com os técnicos regionais do programa da União Europeia de nome ‘Ianda Guiné!’, no estabelecimento dos critérios por região e identificação das famílias que serão contempladas. Nós, do ‘Tadja Fomi’, iremos ao terreno quando formos distribuir os donativos.

O que nos motiva é com certeza o mesmo que motivou (e está a motivar) todos os guineenses que apoiaram/apoiam esta iniciativa direta ou indiretamente: o espírito humanitário que os guineenses têm. Para mim, mais importante do que atingir metas, é ver a vontade das pessoas que querem ajudar. É esta vontade que nos leva a esforçar todos os dias.

Saturnino de Oliveira, Economista e Ativista Social

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